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Salve as Águas da Serra do Gandarela: ato neste domingo contra a ameaça da Vale

Manifestação começa às 10h e foi convocada pelo Movimento pela Preservação da Serra do Gandarela

Ato foi convocado contra o Projeto Apolo, da Vale. Foto: Divulgação

No próximo domingo, dia 28 de novembro, será realizado o ato “Salve as Águas da Serra do Gandarela”. Organizada pelo Movimento pela Preservação da Serra do Gandarela, que há anos luta pela preservação da região, a manifestação é contra o Projeto Apolo, da Vale, cujo processo de licenciamento ambiental teve início no dia 1 de outubro junto à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).


A Serra do Gandarela, junto da Serra da Moeda, são as maiores responsáveis pela riqueza hídrica do Quadrilátero Ferrífero, que fica na região central do estado de Minas Gerais. Suas águas se acumulam no Aquífero Cauê e são captadas pela Copasa, na estação de Bela Fama, a fonte mais importante do abastecimento da Região Metropolitana de Belo Horizonte, na bacia do rio das Velhas.


A abundância de minério de ferro em sua formação geológica, contudo, a torna um alvo da mineração: a Vale está presente em toda a região vizinha ao Gandarela, interferiu na criação do Parque Nacional da Serra do Gandarela – que não inclui a própria serra que dá nome ao parque em razão do lobby da empresa – e tenta licenciar seu Projeto Apolo dentro do Gandarela há anos. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado pela mineradora no último mês confirma a magnitude dos impactos socioambientais, em especial na segurança hídrica.


O ato será no Parque Nacional da Serra do Gandarela, localizado na estrada entre Rio Acima e Caeté, das 10h às 14h.

Ato Viva Gandarela, realizado em 2010. Reprodução: Salve o Gandarela

Importância da serra e lobby da Vale


Localizada entre os municípios de Rio Acima e Caeté, a 40 quilômetros da capital, a Serra do Gandarela abriga “patrimônio biológico, geológico, espeleológico e hidrológico associado às formações de canga do Quadrilátero Ferrífero, áreas de recarga de aquíferos e o conjunto cênico constituído por serras, platôs, vegetação natural, rios e cachoeiras”. Também há uma paleotoca, trecho de mata atlântica primária (um dos últimas intactos no estado) e lagoas de altitude raras. O Gandarela, principalmente seus topos de morros, são simultaneamente áreas de recarga e de acúmulo hídrico, riquíssimos em água de qualidade.


A criação do Parque Nacional foi solicitada pelo Movimento Pela Preservação da Serra do Gandarela em 2009, através da mobilização e articulação de inúmeros cidadãos e diversas entidades e movimentos que lutavam pela preservação do Gandarela desde 2007. Em 2012, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) fez seis consultas públicas para definir os limites da criação do parque.


O Parque Nacional da Serra do Gandarela foi criado em 2014, através de um decreto presidencial, mas com sérios problemas, como arugumenta este artigo assinado pelo Movimento: ficou de fora o trecho mais significativo da Serra do Gandarela, no qual estão a maioria dos atributos que justificam a criação do parque.


Não foi garantida a preservação das últimas grandes áreas remanescentes de cangas ferruginosas da Região Central que protegem e alimentam os aquíferos do entorno da Serra. Também não foi protegida a bacia do ribeirão da Prata, principal curso d’água da região.


Por outro lado, as áreas de interesse da mineradora Vale – porção norte da Serra do Gandarela (Piaco) e Báu – também ficaram de fora dos limites do parque nacional criado. Dessa forma, o que deveria ser uma boa notícia para a preservação do Gandarela acabou deixando vulneráveis suas áreas mais importantes.

Localização das serras na RMBH; Gandarela em vermelho. Imagem: Movimento Gandarela

Projeto Apolo e o “paradoxo da sorte”


Na vizinhança do Gandarela, na própria área da serra que não foi incluída na Unidade de Conservação, a Vale pretende instalar a mina Apolo, que ficaria localizada entre os municípios de Santa Bárbara, Caeté, Rio Acima e Raposos.


A empresa quer minerar a única serra intacta no Quadrilátero Aquífero-Ferrífero, região onde moram quase 5 milhões de pessoas. A região é há décadas impactada por dezenas de minas de extração de ouro e ferro e centenas de barragens de rejeitos; são vários ali os complexos da Vale, como o Vargem Grande – que a mineradora também visa expandir.


O geólogo, pesquisador e professor Paulo Rodrigues, no seminário “Impactos da escassez hídrica na Bacia do Rio das Velhas”, explica que a formação hidrogeológica do Quadrilátero Ferrífero, em Minas Gerais, e mais especificamente da Serra do Gandarela, faz dela uma área fundamental para a recarga e abastecimento hídrico da região, por um lado, mas atrai a mineração, por outro.


O Gandarela tem um geossistema ferruginoso com alta capacidade de recarga, acumulação e circulação hídrica, com alta condutividade hidráulica e excelente potabilidade (qualidade da água). “A formação Cauê, que compõe o aquífero profundo mais importante do Quadrilátero Ferrífero, é também composta por minério de ferro. Ao se minerar o ferro, destrói-se irreversivelmente os topos de morro e o aquífero mais importante para a RMBH.”