Incerteza sobre as águas de Três Marias afastou turistas depois do rompimento da Vale

Trabalhadores de Turismo do entorno da represa de Três Marias relataram ter sofrido com a perda de de até 90% clientes após o desastre

Barreiras instaladas no Paraopeba, não impediram passagem de rejeito, diz SOS Mata Atlântica. Imagem: Vale

[Reportagem publicada no dia 14 de outubro pela equipe de comunicação do Instituto Guaicuy]


Desde 1984, Dona Melci recebia no terreno da sua casa dezenas de turistas todo final de semana e feriado. Ali, ela gerenciava uma área de campo e um bar de tira-gostos, onde os turistas iam se deliciar com os petiscos de peixe e bebidas geladas. Durante quase 35 anos, os visitantes iam até a Ilha do Mangabal, onde ela vive, para pescar e curtir as águas refrescantes da represa de Três Marias, mas isso não acontece mais desde o rompimento da barragem da Vale no Complexo Minerário do Córrego do Feijão, em janeiro de 2019. 


“Vinham dois, três ônibus todo final de semana. Depois do rompimento, não veio mais nenhum. O fluxo caiu mais de 90%. O meu tira gosto era peixe e não podia nem servir mais. Então tinha que fazer carne e aqui na ilha não tem açougue, é difícil conseguir. No primeiro carnaval [depois do desastre] já acabou o turismo, não veio ninguém. Aí eu fechei o balcão”, lembra Dona Melci.


Ela não está sozinha. Em um levantamento feito pelo Instituto Guaicuy no começo de setembro, 49% dos trabalhadores de Turismo do entorno da represa relataram ter sofrido com a perda de clientes após o desastre. Nos relatos colhidos, a falta de informações seguras a respeito da qualidade da água do Rio Paraopeba, da represa de Três Marias e dos peixes aparece como causa direta do êxodo dos turistas. Os dados foram encaminhados às Instituições de Justiça para serem incluídos no processo coletivo em que a Vale é ré.


Pode nadar e pescar?

A relação entre a queda do turismo e o rompimento fica ainda mais evidente quando levamos em conta o gráfico de buscas do termo “Rio Paraopeba hoje” na internet. Pela ferramenta Google Trends, que permite analisar o volume de procura por determinados termos, é possível perceber que o interesse pela qualidade da água do rio aumentou consideravelmente em alguns períodos específicos.


Estes picos eram relacionados ora à ocasião de notícias relevantes sobre o desastre, ora pelo período prévio à feriados prolongados e festas regionais, quando as comunidades do baixo Paraopeba e do entorno de Três Marias costumavam receber um grande fluxo de turistas. 


No gráfico acima, cada ponto indica o volume de buscas do termo ‘rio paraopeba hoje’ por semana, entre 01/01/2019 e 29/02/2020 – Créditos: captura Google Trends


Sem contar com a data do próprio rompimento, o período em que houve o maior volume de buscas pelo termo acontece justamente quando a ONG SOS Mata Atlântica divulgou um estudo em que classificou o Rio Paraopeba como “morto”. Logo em seguida, os dias anteriores à Semana Santa de 2019 registraram o segundo maior pico de buscas. 


O mesmo comportamento se repetiu nas vésperas dos feriados prolongados de 07 de setembro, 12 de outubro e 02 de novembro, assim como nas férias escolares de julho.  O levantamento tratou apenas do período de 2019 e início de 2020 para que a pandemia do coronavírus não afetasse o gráfico. 


Além da renda

De Brumadinho a Três Marias, o rompimento da barragem de minério da Vale continua causando danos sociais às comunidades. O Torneio Nacional de Pesca Esportiva Lago Três Marias é um evento que tradicionalmente atrai grande público para a região. Em 2019 ele aconteceu no feriado de 07 de setembro – um dos períodos gerava grande interesse, pela qualidade do rio – e reuniu 89 equipes de pescadores, um número 28% menor do que o ano anterior, quando atraiu 122 equipes


Com  o sumiço dos turistas, dona Melci fechou o balcão e hoje quase não recebe mais barracas. Antes do rompimento, além do faturamento do restaurante, ela recebia R$10 de cada campista, por final de semana e “chegava as 200 barracas mas, depois, não passou de dez”. 


Nos últimos 19 meses, ela vendeu o carro e um terreno e passou a receber ajuda dos filhos. Isso porque a região no entorno da represa de Três Marias não foi considerada pela mineradora para o recebimento de nenhum pagamento emergencial. “Mas, não é só o dinheiro não, o pior é a tristeza. Eu fazia café da manhã para o pessoal, fazia almoço e eles vinham conversar. A gente conhecia pessoas diferentes. Isso tudo acabou, eu fiquei até doente”, conta. 


[Reportagem publicada no dia 14 de outubro pela equipe de comunicação do Instituto Guaicuy]

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