Entrevista: Na pandemia, governo acelera trem de minério sobre povos das regiões mineradas

Em conversa com o Instituto Humanitas Unisinos, o professor e pesquisador da UFV Tádzio Coelho afirma que a manutenção da atividade mineradora se faz em detrimento de vidas

Mineração foi considerada atividade essencial durante pandemia. Imagem: Sebastian Betancourt sob licença CC

[Entrevista publicada pelo Instituto Humanitas da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) no dia 22 de junho.] Quando, na reunião ministerial de 22 de abril, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse que era preciso aproveitar que a atenção da mídia estava voltada para a pandemia para fazer ‘passar uma boiada’ – fazendo com que projetos polêmicos relacionados a regulações ambientais passem sem ser percebidos – não estava se referindo apenas ao agronegócio. “Além da boiada, o governo Bolsonaro espera passar um trem de minério por cima dos povos das regiões mineradas”, observa o professor Tádzio Coelho, que pesquisa os impactos da atividade.


Isso porque, em plena pandemia de covid-19, o governo baixou uma portaria determinando que a atividade de mineração passe a ser considerada essencial. “A essencialidade da manutenção da atividade mineradora se faz em detrimento de vidas”, completa o professor, na entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos.


Tádzio explica que o argumento para a portaria é assegurar a extração de minerais para a indústria farmacêutica. “Os minerais utilizados na produção de medicamentos representam uma parte ínfima do total de minerais extraídos no país e teriam sua extração mantida. No entanto, a maior parte da mineração no Brasil (ferro, cobre, níquel, ouro etc.) pode e deve ser paralisada para combate à covid-19”, argumenta.


O pesquisador ainda destaca que, além de poder gerar aglomerações, muitos dos trabalhadores da mineração já têm problemas respiratórios em decorrência da atividade. “Faz parte dos direitos dos trabalhadores do setor e das populações dessas regiões participar do isolamento social”, explica.


Enquanto seguem, e até intensificam as atividades, as empresas ainda usam da imprensa para propagandear sua benevolência doando equipamentos e materiais para hospitais que estão no combate à covid-19. “As grandes empresas do setor, principalmente a Vale, têm aproveitado a pandemia para tentar melhorar sua imagem pública doando equipamentos médicos e de proteção. Ao mesmo tempo, a Vale segue colocando em risco a saúde de seus trabalhadores e negociando pesado com os atingidos pelos rompimentos de barragens e evacuados pelo risco de rompimento”, destaca.


Para ele, a portaria que considera mineração atividade essencial e toda a crise econômica gerada pela pandemia podem fazer com que projetos como esse sejam implementados mais rapidamente. Na sua visão, um risco para a população da região metropolitana e todo ecossistema.


É, no discurso da crise, o fortalecimento da minério-dependência. “A minério-dependência vai além da dimensão econômica, e significa uma situação de hegemonia política das mineradoras nas regiões mineradas, que coage alternativas econômicas, constrange as opções de vida das pessoas, centraliza os interesses das grandes mineradoras no processo deliberativo e reproduz o próprio ciclo de dependência”, explica.



O professor Tádzio Coelho. Imagem: Arquivo pessoal

Tádzio Peters Coelho é professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Viçosa (UFV), integrante do grupo de pesquisa e extensão Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade (PoEMAS), membro do Grupo de Trabalho Fronteras, Regionalización y Globalización en América do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) e do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração (CNDTM).


Leia a entrevista na íntegra.


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