Em Ouro Preto, 67 famílias vizinhas de barragem da Vale terão de deixar suas casas

Barragem do Doutor elevou seu nível de emergência de 1 para 2


Em meio à pandemia do coronavírus, 67 famílias residentes do distrito ouro-pretano de Antônio Pereira terão de abandonar suas casas até o fim do mês de abril e hospedarem-se em hotéis na região. O motivo: a barragem do Doutor, pertencente à mina de Timbopeba, da Vale, aumentou o nível de emergência de 1 para 2, na última quarta-feira (1). De acordo com o Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM), quando uma barragem está em nível 2 significa que a estrutura não é completamente segura, sendo necessária a retirada de todas as pessoas que moram na zona de autossalvamento – região onde as pessoas não conseguiriam se salvar em caso de rompimento da barragem. Em setembro do ano passado, foi iniciado o processo de descaracterização da barragem do Doutor, o que significa que a barragem deixou de receber rejeitos para ser esvaziada ou integrada ao meio ambiente. À época, a mineradora declarou o nível 1, quando o monitoramento é intensificado e a instabilidade sinalizada. Já em março deste ano, uma nova avaliação foi feita e, novamente, a barragem Doutor não recebeu o documento que comprova sua estabilidade. Com isso, o nível de emergência subiu para 2. Em decorrência do processo de descomissionamento, onze famílias já haviam sido retiradas das margens da barragem em fevereiro deste ano, quando a situação da estrutura era nível 1 de emergência. O tenente-coronel Flávio Godinho, porta-voz da Defesa Civil defende que não há risco de rompimento na estrutura. Segundo Godinho, encerrado o procedimento de descaracterização e atestada a segurança da estrutura, os 235 moradores poderão retornar para suas casas. O processo de evacuação acontecerá ao longo de todo o mês de abril, mês em que os casos do coronavírus começam a aumentar vertiginosamente. As famílias serão, inicialmente, hospedadas em hotéis da região. No entanto, aquelas que preferirem, podem negociar para que a mineradora Vale custeie o aluguel de algum imóvel.


Moradores desesperados Antônio Pereira está a pouco mais de 50 minutos de distância de Ouro Preto, a apenas 20 minutos de Mariana e em seus limites está a Mina de Timbopeba. Também é vizinha da Vila Samarco, criada para servir de abrigo para moradores da empresa que dá nome à vila. A caminho das minas da Samarco e da Vale, a comunidade abriga um grande número de aposentados que foram funcionários das mineradoras. Ali, residem idosos com idades acima de 70 anos e pessoas com comorbidades sérias, como diabetes, obesidade e câncer – que podem causar complicações de saúde caso elas sejam contaminadas pelo novo coronavírus. O processo de remoção para hotéis em plena época de pandemia do novo coronavírus causa apreensão nas 67 famílias que precisam ser retiradas. “Todo mundo está em desespero. A maior parte das pessoas na nossa rua é aposentada pela Samarco, todo mundo acima de 70 anos. Temos moradores que estão convalescendo, uma grande maioria compõe o grupo de risco do coronavírus. A Vale está ignorando isso, forçando a gente a sair de casa, criando esse alvoroço na comunidade inteira”, afirmou a moradora Laerci Maria de Paula à reportagem do O Tempo.


A maior preocupação para ela é a saúde dos pais idosos em caso de uma evacuação em tempos de pandemia: “Estamos fazendo de tudo para preservá-los, mas ontem já foi um alvoroço. Ontem (quarta-feira, 1º) estava chovendo quando a Vale lançou essa bomba (da necessidade de evacuação) nos grupos, todo mundo foi para a rua e isso criou uma aglomeração gigantesca. O governo nos manda ficar em casa, mas como se teremos que sair para procurar hotel?”, declarou. Denúncia da moradora Aos 50 anos, a advogada moradora de Belo Horizonte retornou para a casa dos pais para apoiá-los, isso desde que a Vale teria começado as primeiras insinuações a respeito da retirada dos moradores. Em Antônio Pereira, Laerci cuida dos pais – um idoso de 75 anos e uma senhora de 70 –, os três isolados há duas semanas como forma de prevenção à Covid-19.


À reportagem do O Tempo, ela garantiu que não houve qualquer estudo para análise da estabilidade da barragem Doutor e que a retirada de moradores é parte de uma estratégia da Vale para início das obras de descomissionamento da estrutura sem a necessidade de pagamento de indenização às pessoas que residem na região. “A Vale nos comunicou em fevereiro que fariam uma retirada programada de todas famílias para as obras de descaracterização possam acontecer. Eu entrei na Justiça para exigir que a Vale nos dê garantias mínimas para sairmos de casa, até porque é uma desapropriação, é uma saída definitiva e obrigatória. Eu pedi um depósito no valor do imóvel para que pudéssemos sair. Eles não fizeram nenhuma proposta”, pontuou Laerci. De acordo com ela, após a suspensão do andamento de processos, com os primeiros casos de coronavírus em Minas Gerais, a Vale retomou os pedidos para que os moradores deixem suas casas, de forma insistentes. “A Justiça está suspensa, o MP também. A Vale está aproveitando essa situação, elevou a barragem para nível 2 porque precisa retirar todo mundo para as obras de descomissionamento. Não há mudança no quesito de segurança da barragem Doutor que justifique a elevação do nível de emergência”, declarou. A advogada reforça ainda a grave denúncia. “A Vale não quer pagar pelos nosso imóveis, então acionou nível 2 de emergência e disse para nós, moradores: ‘dentro de 30 dias, se vocês não saírem, vamos acionar a Defesa Civil e vocês vão ter que sair à força’. Se a barragem realmente estivesse em risco, ela esperaria 30 dias para que nós saíssemos para romper?”, questionou. Ainda de acordo com Laerci, moradores estão em pânico com toda a situação. “A Vale está usando esses artifícios para nos tirar na marra, sem pagar por nossas garantias. Antes, as obras de descomissionamento estavam suspensas, com o coronavírus. Essa semana a Vale retomou o trabalho e começou a infernizar os moradores. Eles vêm de casa em casa, batem nas portas, ligam o tempo todo, colocam caminhões de mudança nas ruas, o maior terrorismo”, declarou. Leia a reportagem do O Tempo.

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