A saúde dos atingidos pela mineração


Os crimes dos rompimentos de barragens e suas consequências são expressões máximas de violências econômicas e institucionais das mais distintas ordens. Essas violências se transformam em sofrimento e se manifestam sobre as vidas cotidianas das pessoas submetidas a elas, em nosso caso os atingidos e atingidas direta e indiretamente pelas barragens de mineração.


Estes crimes afetam o cotidiano das pessoas trazendo sofrimento e adoecimento mental, e são entendidos aqui como uma forma de violência psicossocial. Frans Fanon (1961) psiquiatra e filósofo nos diz que o corpo carrega as marcas da opressão e da violência, e essas marcas são construções históricas e sociais que servem muitas vezes para sustentar um mundo de interdições para os mais pobres.


Dessa forma, entendemos que longe de uma concepção psicologizante que ignora o ser humano como produto de suas condições históricas, que vê o sintoma e não as suas causas, devemos compreender o sofrimento psicossocial vivido pelos atingidos e atingidas como conectados com as condições de violências a que foram e são submetidos e submetidas.


A violência psicossocial vivenciada por essas pessoas se manifesta enquanto efeito dos processos de deslocamento forçado, ruptura dos modos de vida, desemprego, insegurança, desrespeito, humilhação e falta de garantia dos direitos de reparação, perdas sócio comunitárias, perdas da natureza e mortes, para listar apenas alguns. Esses processos todos produzem adoecimentos. Os crimes da Samarco, BHP Billiton e Vale, também precisam ser compreendidos na dimensão dos corpos que sofrem, corpos em que se manifestam os desgostos, a tristeza, a ansiedade, a hipertensão, os problemas cardíacos, a obesidade, insônia, a depressão. Corpos medicalizados, corpos contaminados com metais pesados.


Enfatizamos que os modos de adoecer não podem ser descolados dos contextos sociais nos quais são produzidos, pois, os diagnósticos no campo da saúde mental acabam tendo um significado que também é político, não são isolados, e não devem desimplicar as empresas em suas responsabilidades pelo crime que cometeram e do que precisam reparar.


A falta do adeus

‘Identificar corpo é devolver memória à família’, quem afirma é dos principais peritos no país em identificação de corpos e esqueletos, o médico legista e geneticista forense Samuel Ferreira, que está em Brumadinho a convite do Instituto Médico Legal (IML). A falta do reconhecimento ou mesmo do encontro dos corpos das vítimas é um dos fatores que contribui para o quadro de estresse da comunidade afetada pelo desastre. Até o momento, 11 vítimas do rompimento em Brumadinho estão desaparecidas.


Para quem fica, o luto é considerado um momento de dor e vazio, porém é um processo fundamental para lidar com a morte. Quando isso não acontece, não há a materialização da perda e isso gera um estresse pelo não-encontro, “o que chamamos de ‘transtorno de ajustamento’, pois não há a confirmação da morte e com isso quem fica não consegue construir outra perspectiva de vida, porque ainda está vivendo as etapas do luto, fica sempre à expectativa de que a pessoa pode um dia bater à porta”, explica o professor do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da UFMG, Frederico Garcia.


Estresse pós-traumático

Nas comunidades afetadas pelos rompimentos são observados três grandes grupos. O primeiro é formado pelas pessoas que foram atingidas, mas sobrevivera. Do segundo grupo faz parte os familiares e amigos que lidam com a morte dos seus. Por fim, o terceiro grupo compreende aquelas populações que estão ameaçadas por barragens.


O estresse pós-traumático, que atinge o primeiro grupo, é um transtorno de ansiedade causado por um trauma de natureza extrema ou evento violento que tenha colocado em risco a vida da própria pessoa ou de outras pessoas.


“As crises de ansiedade e pânico são provocadas pela revivescência do trauma sofrido e com isso surge o que chamamos de evitamento, as pessoas passam a evitar tudo aquilo que ela acredita que causa a crise para ela”, explica o professor Frederico Garcia. O tratamento do transtorno do estresse pós-traumático é feito com psicoterapia e medicamentos, sobretudo antidepressivos.


Contaminação por metais pesados

O que há tempo é uma realidade para a população de Barra Longa e distritos marianenses, foi confirmado oficialmente com o Estudo de Avaliação de Risco à Saúde Humana (ARSH), revelado em outubro de 2019: poeira e solo da região estão contaminados por metais pesados. Foram observadas concentrações danosas à saúde de cádmio, níquel, zinco e cobre. A concentração de cádmio, metal cancerígeno, foi 17 vezes superior à margem de segurança.


O estudo foi realizado em localidades atingidas pela lama do rompimento em Bento Rodrigues, em 2015: Barra Longa e seus distritos Barretos, Mandioca, Gesteira e Volta da Capela e nos distritos de Bento Rodrigues, Camargos, Ponte do Gama, Paracatu de Baixo, Paracatu de Cima, Pedras, Borba e Campinas, pertencentes a Mariana. Mais avaliações serão realizadas nos municípios de Rio Casca, Rio Doce, Santa Cruz do Escalvado e Governador Valadares.


Em 2017, 11 pessoas já haviam sido diagnosticadas com intoxicação por níquel em Barra Longa, em exames providos numa iniciativa do Instituto Saúde e Sustentabilidade. Elas desenvolveram problemas respiratórios, na pele e transtornos mentais e parte precisará de acompanhamento clínico periódico até o fim da vida.


Em fevereiro deste ano, a Renova, fundação criada pela Samarco, Vale e BHP Billiton para conduzir o processo de reparação, afirmou que os moradores de Barra Longa só serão considerados como atingidos se comprovarem ligação entre os problemas de saúde e o rompimento. Juristas criticaram a posição afirmando que o ônus da prova deve ser de quem causou danos, apontando também a disparidade no poder de afetados e das mineradoras para se defenderem.


A primeira parte do texto foi escrita pela psicóloga Débora Rosa. Ela é doutora em Psicologia Social pela UFMG, e acompanhou por quase dois anos e meio as famílias atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, além de participar de audiências públicas e atos realizados pelas atingidas e pelos atingidos para reivindicar seus direitos.


Foto: Renato Crispiniano

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